
A árdua e vertiginosa caminhada das vacas (ou das Dollies) para o topo incógnito representa a ambição desmedida, geradora da aniquilação dos prazeres simples e de vários distúrbios mentais, que parece ser excessivamente prezada nos dias conturbados de hoje.
A fadiga é vã - morrem no caminho, de exaustão, num último e fatal ataque de velhice crónica. Quem, ou o quê, ocupa a posição cimeira? Deus não pode ser, esse morreu - a última vez que morreu foi em Hiroshima, desde então nunca mais ressuscitou, e eu não posso acreditar no poder de um defunto.
Talvez o ponto de interrogação possa ser substituído por enorme € (levantado à potência infinita). Mas não me parece, pois mesmo o homem com maior riqueza monetária pode ser servil. A incógnita pode ser qualquer símbolo que se queira, qualquer sonho louco, qualquer ideal... Ou o vazio! Um vazio incongruente, destituído de significado como de matéria, e incomensurável. Vazio porque, na verdade, o topo da pirâmide (que é alta, apesar de só estarem representados três andares) está desocupado, porque a servidão é omnipresente, uma coisa comum a todos os seres.
O senhor em baixo, que acha ridícula a labuta do gado mas desfruta do espectáculo desta servidão bovina (que é a mesmíssima coisa que servidão humana), é o Alberto Caeiro, que sabe a importância do momento presente. A vida é breve! Para quê desperdiçá-la em escaladas inúteis?
O autor sugere ainda a audição do tema "Mercedes Benz" de Janis Joplin, no site seguinte:
http://www.youtube.com/watch?v=Q-g7Q7hXn7o
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